5 dicas para avaliar a qualidade de uma boa locução (parte 1)

Publicado em 20/01/2021


Muitas vezes, avaliar a qualidade de um arquivo de áudio vai muito além de analisar a boa disposição do locutor em gravá-lo. É preciso um olhar técnico (ou melhor, um "ouvir técnico") para identificar se o resultado final é bom o suficiente para ser utilizado para os fins desejados pelo cliente final. E é justamente sobre estes aspectos técnicos que hoje trarei 5 dicas de como você, que não tem experiência com áudio, pode identificar falhas de qualidade em arquivos de locução. Continue acompanhando esta série, pois este é o primeiro de uma sequência de artigos com este tema.

Neste artigo:

  1. Locução sem pop filter
  2. Distorção do som por volume ou proximidade excessiva
  3. Ambiência
  4. Microfone e equipamento inadequado para locução
  5. Excesso de manipulação

Problemas a identificar em arquivos de áudio

A seguir, os 5 problemas mais comuns ocasionados pela má qualidade ou ausência de equipamentos adequados, que você deve verificar. Não coloque áudios que apresentam estes problemas em seus projetos, pois, por mais pequenos que eles possam parecer, a repetição excessiva deles ao longo da audição torna a mensagem final cansativa e estressante para quem ouve.

Atenção: a maioria dos problemas é melhor percebida com fones de ouvido estéreo.


Por que evitar estes problemas é importante? Porque qualquer elemento inesperado na locução irá desviar a atenção do seu ouvinte e, muitas vezes aborrecê-lo e fazê-lo abandonar a audição. Obviamente isto não é interessante para você, que deseja que ele conheça seu produto ou serviço anunciado.

1. Locução sem pop filter

Na língua portuguesa, assim como em qualquer outro idioma, existem fonemas que são impossíveis de pronunciar sem emitir ar pela boca. É o que acontece, por exemplo, com todos aqueles formados pelas letras "P" e "B" no português. Faça a seguinte experiência: coloque sua mão aberta a 5 centímetros da sua boca e pronuncie a frase: "Pedro perdeu a bola de Bárbara". Se você observou bem, toda vez que pronunciou as sílabas com P ou B desta frase (Pe pe bo Bá ba), um "jato de ar" foi expelido da sua boca, forte o suficiente para ter sido sentido na palma da sua mão. Experimente agora repetir o mesmo exercício, porém falando com uma voz firme e em maior volume, como se estivesse anunciando um evento importante no rádio (como um locutor). Você certamente sentiu uma forte rajada de ar!

Bom, agora você já pode imaginar o que acontece quando no lugar da mão há um microfone. Estes jatos de ar são fortemente percebidos pelo equipamento, de forma que pode-se ouvir "estouros" na gravação final. Veja um exemplo:

Na terminologia dos equipamentos de áudio, este "estouro" é chamado de "pop". Por mais óbvio que tal problema possa parecer, é impressionante ver como existem locuções rodando por aí onde o pop está presente. Não é preciso dizer que isto é inaceitável para um projeto sério, pois trata-se de um descuido muito grande por parte do locutor, uma vez que a solução é muito simples. A solução se chama "pop filter", e é justamente uma espécie de filtro de tecido que é colocado na frente do microfone, tendo o papel de impedir que o ar chegue até ele. Veja a diferença:

No exemplo acima, o pop filter impediu que o ar chegasse até o microfone.

2. Distorção do som por volume ou proximidade excessiva

Você certamente já deve ter observado nas ruas da sua cidade aqueles veículos de som emitindo propagandas políticas, promoções de supermercados e até mesmo música com volume excessivo. Quando isso acontece, na maioria das vezes o som alto é acompanhado de um chiado ou distorção nas caixas de som, evidenciando que o volume está mais alto do que o equipamento pode suportar. Se alguém gravar aquele som e baixá-lo na gravação, a distorção continuará a ser ouvida, mesmo que agora esteja com volume baixo. A mesma coisa acontece com um microfone, e também é fácil verificar isso. Basta observar uma pessoa que grita ou fala muito alto diante de um, o que acontece com frequência em comícios políticos, manifestações de rua e similares. No caso da locução, muitas vezes o falar alto não é intencional, mas mesmo assim extrapola o espectro sonoro adequado, causando uma distorção. Veja um exemplo:

Assim, é importante observar se a locução não possui tais picos de distorção, mesmo que o volume pareça adequado (pode ter sido baixado depois). Muitas vezes isto acontece devido ao emprego de maior ênfase na voz em determinado momento da locução, em outras devido à aproximação excessiva da boca ao microfone, na intenção de criar um efeito de proximidade. Embora existam ferramentas de edição que prometam removê-los na pós-produção, sempre é melhor evitar, já na gravação.

3. Ambiência

A ambiência acontece quando o microfone capta o som ambiente da sala onde o locutor está gravando. Isto pode incluir ecos, reverberação e até sons externos, como barulho de carros na rua ou atividade de pessoas próximas. Veja um exemplo:

Para evitar a ambiência, é necessário gravar em um ambiente tratado acusticamente, ou ainda dentro de uma cabine de som apropriada. Embora a ambiência possa ser benéfica em alguns casos, como na gravação de instrumentos acústicos como violões e similares, é desaconselhável para locução.

4. Microfone e equipamento inadequado para locução

Enquanto microfones verdadeiramente profissionais custam dezenas de milhares de reais e necessitam de equipamentos especiais como cabos XLR balanceados, Phantom Power (alimentação especial, encontrada em mesas de som ou interfaces de áudio), pré amplificadores e similares, uma busca rápida na internet por "microfone condensador profissional" lhe mostrará microfones chineses custando de R$ 70,00 a R$ 500,00, que dispensam qualquer equipamento extra e podem ser ligados diretamente ao computador via porta USB.

Comparados com o exemplo anterior, é inegável que há uma distorção comunicativa muito grande na afirmação de que estes são "equipamentos profissionais de extrema qualidade", como são mencionados pelas lojas e pessoas que os vendem. A pergunta que deve se feita é: extrema qualidade para qual finalidade? Se for para uso pessoal, como vídeos para o Youtube, vídeo-conferências e similares, então poderíamos dizer que são ótimos microfones, pois certamente serão superiores àqueles integrados ao seu computador ou que acompanham o seu celular. Entretanto, quando se fala em locução publicitária, os critérios são bem diferentes.

O microfone utilizado em locução profissional precisa ter um corpo sonoro abrangente e rico em frequências, algo impossível de ser alcançado sem alguns elementos importantes que não são encontrados em equipamentos mais baratos. O resultado pode ser visto na comparação abaixo:

[exemplo em breve]

(Todos os áudios abaixo estão sem edição):
Microfone 1 (R$ 30,00):


Microfone 2 (R$ 250,00), sem pop filter:


Microfone 2 (R$ 250,00), sem pop filter, mas com cabo balanceado:


Microfone 3 (R$ 4.000,00), com pop filter:


Neste caso, um ouvido treinado pode identificar rapidamente problemas com o microfone, como excesso (ou falta) de graves, médios ou agudos; ruído em demasia proveniente de sinais elétricos; falta de um "som encorpado" e outros. Na dúvida, compare!

5. Excesso de manipulação

Muitas vezes, para disfarçar ou esconder os problemas causados pelo equipamento, falta de técnica com a locução ou outros, é feita uma edição posterior no áudio, através do software de edição / gravação.

Este é um procedimento muitíssimo comum e até mesmo necessário na grande maioria dos casos. Fazendo uma comparação, é como o trabalho de um fotógrafo, que após realizar sua foto usa um software de edição, como o Photoshop, para ajustar a iluminação e detalhamento de uma imagem.

O problema é que quanto mais um áudio é manipulado, mais pesado e difuso ele fica, podendo haver perdas significativas na sua qualidade final.

Apenas como exemplo, veja o som de timbre fechado e "quase robótico" obtido após tentativa de eliminar o ruído de fundo deste áudio:

Para efeitos de comparação, este é o mesmo áudio mostrado anteriormente, apenas com últimas frases cortadas. Então você pode pensar: "melhor não aplicar este recurso"... Pois é! O problema é que entre o ruído excessivo gerado pelo quipamento ruim e o som fechado, muitos locutores optam pelo segundo.


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